Greve.

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É hoje Fernanda. Hoje que ficas em casa, que passeias o Fisgas pela trela, tu e os teus tipo croques mas os liláses nao os brancos de todos os dias a chinelar pela rua, dez da manhã e foi desta, nem aderiste tu à greve, aderiu-se-te a greve a ti. Contam-se pelos dedos de uma mão, de uma só os dias em que faltaste ao trabalho, andas sempre a dizer mais de vinte e cinco anos disto, cinquenta e quatro anos de vida, auxiliar de acção médica, no hospital, ganhas €687, suspiras não tenho dinheiro para isso mas ontem a Deolinda que chama os doentes quando saíu

- bom fim de semana que amanhã não venho

A Deolinda que dá benzeduras ao Primeiro MInistro, a Deolinda que diz que belo homem, que bem posto, a Deolinda que diz que ele canta e tem boa voz e tudo o homem, vê como está a ficar careca, aquilo é das ralações, sabes lá, isto não é fácil, eu é que não queria estar no lugar dele, a Deolinda ontem vai disto, pega na mala e disse-te

- bom fim de semana que amanhã não venho

Hoje Fernanda passeavas o Fisgas na tua rua nem eram dez. E tu não foste.

(Rua Professor Veiga Beirão)

Demolição.

Olha lá a facilidade com que uma casa vem abaixo. Ali ficamos na rua a ver, a grua a dar cabo do prédio, lá se vão as paredes, as portas, as tintas das paredes, lá se vão as memórias do café do Sr. Gonçalo, que já morreu mas a Dona Lina ainda está viva e que bons que eram os croissants diz-me uma senhora que resolve também tirar fotografias. Na janela em frente, uma senhora e o cão, passa o vizinho, brinca com ela, hoje tem direito a cinema. E todos fazemos os nossos filmes. Para mim, é como se todos os diálogos alguma vez tidos naquelas casas, todos os ais, todos os risos, choros, lágrimas, gritos, alegrias se despegassem dos tijolos e se largassem para aí, a pairar pelos céus de Lisboa. 

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Travessa Henrique Cardoso, 81 a 87

Imagem © cc

Ainda em Janeiro:

http://bairrodealvalade.com/post/41871892604/whats-another-year-travessa-henrique-cardoso

Bairro #1

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Bairro #1

O primeiro CD dos Arcade Fire chama-se Funeral, a banda sonora com que enterrei o Miguel, coisa boa, amor meu, riqueza, eu a fofinha, meu doce, couve flor, acabámos em filhos da puta e um destes dias furo-te os pneus, ainda por cima, caí em cima das ferramentas de jardinagem ao pô-las lá em baixo com o resto das coisas dele, aquelas ferramentas que ele nem nunca usou mas que ia usar um dia quando fossemos para o campo,

-       estás a ver Inês, já comprei a sachola,

bem que a podia eu ter usado eu para lhe fazer a cova mais funda mas ficou vivo e passei esse mês de Abril de 2005 a olhar para as canadianas encostadas ao sofá, para o pé no gesso onde desenhei caveiras e que cocei com alívio com uma agulha de tricot. Os Arcade Fire são uma banda deusa do rock alternativo, são do Quebec, o Canadá Francês e parece que morreram alguns avós dos membros durante as gravações do álbum Funeral e por isso lhe chamaram isso mesmo, uma catarse feita em estúdio e que me assentou à medida. O CD abre com a faixa Neighborhood #1 (Tunnels), uma canção épica que foi feita para dançar só sobre um pé, com o outro engessado e canadianas no ar, num equilíbrio que não é para todos, mas foi para mim e assim os Arcade Fire puseram-me de novo sobre os meus dois pés sem metáforas. Em noites mais densas, depois de jantar, depois de tudo arrumado e estar pronta para nada por volta das nove e um quarto da noite, penso nos Arcade Fire, que são tantos, uma banda feita de um monte de gente, Win Butler, a mulher Regine Chassagne, o irmão dele, mais o irmão de não sei quem, mais o rapaz do acordeão e tudo, tantos instrumentos, é muito recompensador gostar de uma banda que tem um xilofone e deixo de ser uma mulher sozinha com a cozinha arrumada e passo a ser parte de uma família que tem parentes no Canadá. Agora, desde há um mês que partilho andar com uma família extensa, com filhos, cão, tudo, marido e mulher e todos, eles no terceiro frente, eu no terceiro direito, todos a jantar à mesma hora, com as cozinhas lado a lado, com o som das crianças, dos tachos, dos pratos, copos e eu só com aquele plim do microondas. Todas as noites o mesmo ritual, os tachos, os pratos, os copos, os risos, a conversa, as migalhas e no final o aspirador. Acho que fazem tudo para me mostrar que são tantos. Por isso, para esta noite preparei a resposta e vou dar-lhes com o fogo de arcada no electrodoméstico. Preparei o Funeral, faixa 1- e se a chuva (não a neve) enterrar o meu bairro? Esta noite mostro-lhes que eu e os meus primos de Montreal também somos uma família.   

Passadeira.

Qualquer dia, Luísa, ficas debaixo de um carro. Estou a dizer-te. Está ali uma passadeira, vai lá. Luisinha, agarrava-te a tua avó a mão, pequenina, a dela nodosa para te amarrar à vida, os teus dedos apertadinhos enfiados na mão dela, firme, anda cá para atravessar a estrada, nem havia muitos carros nesses dias, mas bastava um, dizia ela, só um, tu de miniatura e quando chegadas ao passeio a avó prendia-te a mão num só gesto e fazia-se à passadeira, a avó como se fosse feita de muralha, de barreira, de escudo e só te largava do outro lado mas antes e sempre dava-te um beijo pequenino nos dedos. Estamos deste lado agora Luisinha. Qualquer dia, Luísa, espetas-te à frente de um carro, a sério. Que essa mania que se te pôs de atravessar a correr em qualquer lado ainda vai dar mal. Nem foi assim, que se te pôs a idade sobre a mania, foi-se, voltaste às passadeiras e por aí fazias o teu passo rápido quando o carro nem parou em ti, parou no candeeiro, tu atirada às voltas no ar, quem viu atirou as mãos à cabeça, as mãos ao peito, aos telemóveis, ao 112, caíste sobre as costas e antes de perderes o sentido sentiste um beijo pequenino nos dedos e ouviste a tua avó dizer, estamos deste lado agora Luisinha. 

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(De acordo com o Plano de Acessibilidade Pedonal de Lisboa, a Avenida da Igreja é a segunda mais crítica da cidade de Lisboa nos atropelamentos em passadeiras (zebras) sem semáforos. O Plano está disponível para consulta pública no site da Câmara em www.cm-lisboa.pt/viver/mobilidade/modos-suaves/mobilidade-pedonal/plano-de-acessibilidade-pedonal)

Ali no Centro.

Havia o Sempre em Festa com dossiers, pastas, carteirinhas e estojozinhos e coisinhas com bonequinhos e desenhinhos, em plástico branco com padrões coloridos. Havia a Valentim de Carvalho de culto que tinha discos daqueles duros de vinil, capas grandes, bonitas e posters nas paredes, havia uma livraria, havia corredores que nunca entendi por onde se ia e voltava sem me perder, uma entrada de metro algures, lojas de roupa, lojas de vidros transparentes e brilhantes, a loja dos animais com oh o gatinho, oh o cão, encostados uns aos outros a dormir, o cinema onde o Daniel Day Lewis, a Juliette Binoche, a Lena Olin me mostraram, ali pelos meus dezoito anos, que o ser humano pode vir em tantos formatos, feitios e pesos, uns são leves, outros nadam como o Jean-Marc Barr que lá vi mergulhar no azul com os golfinhos e lá, uns anos depois, deixei uma carteira na lavandaria com os bilhetes para um concerto dos Saint Germain no Lux. Recuperei-a no dia seguinte, um concerto perdido depois, apesar de todas as insistências, telefonemas e pedidos aos seguranças do Centro para que alguém me abrisse a porta da lavandaria, por favor. O Centro Comercial de Alvalade era o Centro ali mais ao pé de casa e depois fui-o esquecendo e as montras tornaram-se mais brilhantes noutros lados. Mas ontem que era domingo de manhã, as cadeiras a estrear do novo do Centro Comercial de Alvalade, já estavam com gente, pequenos almoços e cafés. Ponham-se cadeiras ao sol e as pessoas vêm. Estiquem-se corredores e ponham-se lá de novo lojinhas e as pessoas vêm. Vi pouco do Centro mas vi que continua lá a ABEP dos bilhetes para espectáculos. No mesmo sítio, com o mesmo ar, irredutível. Parece um lembrete que ali havia um centro e que ali agora há outro. 

O meu bairro.

O primeiro episódio do programa “O Meu Bairro” de Ana Sousa Dias de 2007 é um passeio pelo Bairro com o Arq. Nuno Teotónio Pereira. Encontrei-o no you tube e aqui está o link.

http://www.youtube.com/watch?v=XMBN4mV3m6c

Os Presidentes da Junta.

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No domingo, vamos todos a votos e se há missão romântica é isto de ser Presidente de Junta. As Juntas de Freguesia neste imenso país são a determinação dada às gentes, a democracia ali ao virar da esquina da rua de casa, aquele sítio onde o poder se torna local. São ou talvez eram. Foram. Se houve coisa que o vinte cinco de abril deu a cada um de nós foi ter o direito de decidir para onde vai passear a camioneta da Junta. Hoje estão reformadas, reorganizadas, muitas estafadas com anos de poder autárquico demasiado pessoal e interesseiro, muitas outras extintas mas continuam a ter aquela tarefa bonita de tomar conta dos nossos destinos colectivos mais diários, o destino dos mais novos e dos mais velhos, da limpeza, do passeio, do canteiro, do jogo da bola, das bicicletas, dos mercados, do cócó dos cães, dos cursos de internet e, claro, das excursões. Gosto das Juntas. Aqui no bairro a eleição faz-se pela primeira vez para a versão XL de Alvalade que agora engloba também São João de Brito e Campo Grande. Os candidatos estão aí pregados nas paredes, postes e outdoors da Freguesia, estão na caixa do correio, nas páginas de facebook e devem andar em arruadas mas não me cruzei com nenhuma. Os folhetos são quase todos verdes. Sejam do PS, da coligaçãoPSD/ CDS-PP/ MPT, CDU ou do BE são cor de ervilha, de alface, cor da esperança, da inveja, das árvores e dos feijões. As listas de candidatos são bons exercícios para avaliar os nossos conhecimentos da natureza humana. Tapar a linha que identifica cada candidato e tentar adivinhar a sua profissão é estimulante. Os candidatos mais presentes em todo o lado são André Caldas/ PS e Mafalda Teixeira/ PSD/ CDS-PP/ MPT. Ele tem algo de Clark Kent, radioso, contente, nada como um candidato feliz, ela parece aquela colega que todos tivemos na Faculdade que, já no segundo ano, enquanto o resto tentava apenas conjugar o horário do comboio ou do metro com o horário das aulas, já conjugava a saia com o casaco e a mala com os sapatos. Nada como uma candidata arrumada e empenhada. Eles é que querem ser o Presidente da Junta mais envelhecida de Lisboa. E isso é mesmo uma bela missão que merece todos os votos. 

Radiohead.

(Rua Frei Amador Arrais)

A marca do Bikini.

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Do sabugo ao gelinho já vão três semanas, todas as três e respectivos dias. Judite olhou para o espaço da unha a crescer e pensou raios te parta o tempo que passa a correr. Daqui a bocado já estamos na Natal e ainda hoje é Setembro e ainda agora estava a virar-se de barriga para baixo em Monte Gordo a abrir um olho só a ver se catava o rapaz das bolas e a meter areia na revista cheia de notícias da Cristina Ferreira. E agora já a levar com o Fonseca. 

- Dona Judite, sabe o que fazia bem 

É pá, o Fonseca, pensa a Judite, a Judite não quer pensar no Fonseca nu, o Fonseca cheira a espaço interdental, o Fonseca dá puns, lá vem o Fonseca com um dossier gordo como ele debaixo do braço 

- Dona Judite, sabe o que fazia bem, entregava isto na contabilidade, metia-se no seu carrinho agora, até lhe digo para ir mais cedo e deixava isto ali na contabilidade, na Avenida de Roma que é para os seus lados 

- Sr. Fonseca, moro em Frielas 

- Judite, vá lá que vê as montras 

O Fonseca que é gordo como o dossier que lhe passou para as mãos não sabe que não há quase montras na Avenida de Roma, não sabe, para ver montras vai-se ao Vasco da Gama, ao Dolce VitaTejo, tás a ouvir Fonseca, Fonseca não ouve que Judite não fala e diz-lhe 

- Dê cá, então, que passo lá 

E vai Judite mais o dossier. A contabilidade é por trás do Centro Roma, é só procurar, o centro nem gente, nem lojas, estaciona o carro, passa na contabilidade e volta pela Gama Barros. Reconhece a rua, olha para a porta, a porta do Bikini nem gente, nem nada, os ferrolhos com ferrugem, os papéis com humidade, a porta que não abre, o Bikini onde Judite fez a despedida de solteira, uma maluqueira com as raparigas lá da fábrica e outras de lá da rua e lá do curso nocturno e mais as primas do Rui que vieram de propósito da Covilhã, todas para ver os moços a despirem-se. E a Neuza, a doida dos orçamentos, mais a Sandra que é comercial, é que pensaram nisso. Vai Judite a passar pela porta, olha lá dentro, pendem umas cortinas pendidas e desbotadas, cá fora o menu de lado e um panfleto. Ai a Neuza é uma doida e mandou fazer um bolo que tinha uma grande pila e disse 

- Judite, vai ser uma noite para lembrar 

E Judite lembra-se da noite mais do que do casamento, dois anos que foi, mas que nesta família ninguém se divorcia, mas divorciou-se a Judite e tudo parecia que iria corria tão bem, todas com uma bandoleta com pom poms na cabeça, a comer bifes com molho afrodisíaco a 17 euros e a Judite que nem queria mas a Neuza disse-lhe 

- Judite não sejas sonsa, vais gostar, vamos embora marcamos um grupo e vamos ver que aquilo é uma arte, aquilo não é pornografia nenhuma, os rapazes podiam ser bailarinos ou actores, aquilo dá-te cá uma estrica que no dia seguinte lambes os envelopes todos que o Fonseca te der 

E elas riram-se todas e Judite também, nem lhes disse que os envelopes agora tinham pala autodesk e já não eram lambidos e foram na sexta uma semana antes do casamento, ela de tule cor de rosa na cabeça, jantar ali por detrás da Avenida de Roma, na Gama Barros. Judite encostou o nariz à porta cheia de pó do Bikini e percebeu que aquilo tinha fechado. Aquilo onde Judite tinha subido para um palco pequenino ao som dos Enigma, nervosa de boca hirta mas depois o polícia sentou-a na cadeira, despiu umas calças daquelas que se tiram só por puxar e Judite riu-se até esborratar o eye liner. Casou-se, numa quinta em Caneças, a sobremesa da festa era tão linda que até trazia um pauzinho que largava fogo mas nem isso safou o casamento e Judite, olha lá que ninguém se divorcia nesta família, um dia fez um saco ao Rui e fechou-lhe a porta. Nem Bikini, nem casamento, nem o gelinho, daqui a pouco nem a marca do bikini que lhe deixou Monte Gordo, nem nada. Raios te parta o tempo.

 

(The Bikini Restaurant era na Rua Gama Barros e está fechado. Segundo o flyer era um restaurante erótico com show strip, para despedidas de solteiro/a, despedidas de casado/a, aniversários, jantares de empresa).