Puzzle.

image

Abriu a janela de manhã e tudo encaixou. Estava resolvido. Feito como um puzzle de 1000 peças. Tomou banho, vestiu-se, estreou uma saia, mandou-lhe uma mensagem, fechou a porta de casa e desceu as escadas. E foi onde tinha de ir porque afinal era mesmo Outono.

(Avenida dos Estados Unidos)

Foto: © CC

Gaita de frio.

image

image

image

Diz-se que a melodia da gaita que chama os fregueses dos amoladores anuncia chuva. Mas por estes dias só frio. 

Isso antes não se dizia que fazia chover? 

O sr. Zé ri-se. 

Não. E esta toca como deve ser, não é ali como aquele que parece o comboio de Chelas.

No fim da rua, outro amolador. Empurra a bicicleta à mão e sopra umas escalas na gaita. Dois amoladores na mesma rua do Bairro de São Miguel. Mas aqui o sr. Zé tem um veículo comercial forrado de Glorioso, com dois papagaios de plástico à frente, um de cada lado do pára-brisas. 

Deixe-me lá tirar-lhe uma fotografia, pode ser?

Sim, sim. É para a internet? Eu já apareci na televisão, com a Catarina.

A Catarina?

Sim e um patim de gelo.

Ah, parece que o Sr. Zé, que já faz isto desde sempre, desde o pai, não se lembra do meu Pai, um senhor de idade, anda por todo o lado, de Lisboa a Sintra, passando pelos blogues e TV. 

O sr. Zé ri-se. Ri-se muito.

Olhe cá, fique com o meu número. Se tiver algum serviço, é só chamar que eu vou lá. 917 448 562.

Só chamar, para facas, tesouras, tachos e chapéus de chuva. Fica tudo afiado e com a alegria de se ter uma traquitana do Benfica parada à porta. 

Que remédio, Vitorino

 image

De manhã no Mercado, sobe as escadas devagar, que o sol acalma os ossos que o frio aperta, bengala e aparelho ligado no ouvido, o saquinho das compras e a relação dos remédios no bolso, um cartão estimado com a letra da Ivone, guardado como se fosse a pagela de um Santo, Ivone trazia sempre a Sãozinha da Abrigada que não lhe falhou muito, menos talvez no fim mas talvez nem isso que Ivone se finou depressa e nem Vitorino percebeu porquê. Os do pequeno almoço, os do almoço e os do jantar, os da tensão, os dos ataques, há muito que Vitorino não caía nem em casa nem na rua, nunca mais desde que ficou sozinho, parece que até a epilepsia resolveu morrer antes dele. Ivone guardava-lhe as caixas, vigiava-lhe as horas, as tomas, deixava tudo escrito e ele guarda dela o papel com tudo o resto, ali para o acompanhar no bolso do casaco quando sobe as escadas do Mercado. Na padaria, umas senhoras querem que passe à frente que ele tem direito e ele põe-se só um pouco mais direito e diz

Porcaria da idade

Porcaria da idade, Vitorino não quer, quer a vez dele, quer é ter direito
à conversa, mas lá vai ele à frente,

Tenho oitenta e oito anos, morava numa casa cheia de gente

E a padeira grita-lhe

O que vai ser hoje, menino

Vitorino diz que são cinco pãezinhos e ri-se a padeira

Menino, que isso vai dar-lhe para a semana toda

Oitenta e oito anos, a lista dos remédios do bolso, a Ivone no sono eterno no Alto de São João e ele no Mercado a comprar cinco carcaças que lhe dão para todos os dias e aproveita e conta que tem oitenta e oito anos

Uma casa cheia de gente, um entre e sai e corrupio, eu era o mais velho, veja lá bem, e só aqui estou eu. Já viu, ninguém

Fala para trás, para o resto da fila, paga os cinco pães só cinco, repete

Porcaria da idade

De manhã no Mercado, desce as escadas devagar, tanto frio, mas com uma relação de medicamentos no bolso, guardada como se de um Santinho se tratasse. Que remédio, Vitorino.

King is dead.

image

A primeira vez que fui sozinha ao cinema foi ao King. Já tinha há muito tempo idade para fazer coisas sozinhas e mais outras tantas acompanhada mas demorei a sentar-me sem conhecer a pessoa do lado numa sala de cinema. Foi também do King a única vez que sai a meio de um filme. Agosto não era bom mês para a Mãe e Filho do Sokurov que nos impacientou e como a mãe demorava a sua frágil vida nos braços do seu filho saímos para comer crepes com gelado e chocolate quente. Por estes dias, o King é, agora que se anuncia o seu encerramento este domingo, o proclamada “meu” cinema de muitos e “meu” também. O “meu” do Piano, da Pianista, do Crash, do Mulholland Drive, do Ganhar a Vida, da Noite Escura, dos Três Irmãos, dos Mutantes, das Ondas de Paixão, dos Idiotas, do Dancers in the Dark, da Pola X, da Ponette, da Amélie Poulain, do Lost Highway e podia continuar. Podiamos todos, podia o King porque há sítios que gostamos de manter assim. Nós mudamos e queremos que algumas coisas fiquem na mesma. Mudamos o hábito, a regularidade, a visita, a disponibilidade mas gostamos de saber que existe a modista, o talho do bairro, o senhor da frutaria, a padaria da esquina, o senhor dos sapatos, a retrosaria e o cinema ali mesmo ao pé. Mas poucas coisas na vida são tão incondicionais, muito poucas e o “meu” King da Árvore da Vida e do Amor não é uma delas. Posso ter pena sim mas poucos amores também o são.  

Estamos aqui.

Somos os maiores, disse-me uma senhora quando me viu a tirar uma fotografia à bandeira. Somos pois, disse-lhe eu. Somos feitos de ferro, talhados em mármore e cheios de dopamina benzemos o moço, o que corre, cristiano-rei de braços abertos, venham de lá todos os títulos dos jornais desportivos porque se ele grita Eu estou aqui então nós também estamos. Aqui, com a bandeira pendurada na trotinete. 

image

(Posto de venda de flores estacionado à porta do Pingo Doce da Rua Conde Sabugosa.)

Greve.

image

É hoje Fernanda. Hoje que ficas em casa, que passeias o Fisgas pela trela, tu e os teus tipo croques mas os liláses nao os brancos de todos os dias a chinelar pela rua, dez da manhã e foi desta, nem aderiste tu à greve, aderiu-se-te a greve a ti. Contam-se pelos dedos de uma mão, de uma só os dias em que faltaste ao trabalho, andas sempre a dizer mais de vinte e cinco anos disto, cinquenta e quatro anos de vida, auxiliar de acção médica, no hospital, ganhas €687, suspiras não tenho dinheiro para isso mas ontem a Deolinda que chama os doentes quando saíu

- bom fim de semana que amanhã não venho

A Deolinda que dá benzeduras ao Primeiro MInistro, a Deolinda que diz que belo homem, que bem posto, a Deolinda que diz que ele canta e tem boa voz e tudo o homem, vê como está a ficar careca, aquilo é das ralações, sabes lá, isto não é fácil, eu é que não queria estar no lugar dele, a Deolinda ontem vai disto, pega na mala e disse-te

- bom fim de semana que amanhã não venho

Hoje Fernanda passeavas o Fisgas na tua rua nem eram dez. E tu não foste.

(Rua Professor Veiga Beirão)

Demolição.

Olha lá a facilidade com que uma casa vem abaixo. Ali ficamos na rua a ver, a grua a dar cabo do prédio, lá se vão as paredes, as portas, as tintas das paredes, lá se vão as memórias do café do Sr. Gonçalo, que já morreu mas a Dona Lina ainda está viva e que bons que eram os croissants diz-me uma senhora que resolve também tirar fotografias. Na janela em frente, uma senhora e o cão, passa o vizinho, brinca com ela, hoje tem direito a cinema. E todos fazemos os nossos filmes. Para mim, é como se todos os diálogos alguma vez tidos naquelas casas, todos os ais, todos os risos, choros, lágrimas, gritos, alegrias se despegassem dos tijolos e se largassem para aí, a pairar pelos céus de Lisboa. 

image

Travessa Henrique Cardoso, 81 a 87

Imagem © cc

Ainda em Janeiro:

http://bairrodealvalade.com/post/41871892604/whats-another-year-travessa-henrique-cardoso

Bairro #1

image

Bairro #1

O primeiro CD dos Arcade Fire chama-se Funeral, a banda sonora com que enterrei o Miguel, coisa boa, amor meu, riqueza, eu a fofinha, meu doce, couve flor, acabámos em filhos da puta e um destes dias furo-te os pneus, ainda por cima, caí em cima das ferramentas de jardinagem ao pô-las lá em baixo com o resto das coisas dele, aquelas ferramentas que ele nem nunca usou mas que ia usar um dia quando fossemos para o campo,

-       estás a ver Inês, já comprei a sachola,

bem que a podia eu ter usado eu para lhe fazer a cova mais funda mas ficou vivo e passei esse mês de Abril de 2005 a olhar para as canadianas encostadas ao sofá, para o pé no gesso onde desenhei caveiras e que cocei com alívio com uma agulha de tricot. Os Arcade Fire são uma banda deusa do rock alternativo, são do Quebec, o Canadá Francês e parece que morreram alguns avós dos membros durante as gravações do álbum Funeral e por isso lhe chamaram isso mesmo, uma catarse feita em estúdio e que me assentou à medida. O CD abre com a faixa Neighborhood #1 (Tunnels), uma canção épica que foi feita para dançar só sobre um pé, com o outro engessado e canadianas no ar, num equilíbrio que não é para todos, mas foi para mim e assim os Arcade Fire puseram-me de novo sobre os meus dois pés sem metáforas. Em noites mais densas, depois de jantar, depois de tudo arrumado e estar pronta para nada por volta das nove e um quarto da noite, penso nos Arcade Fire, que são tantos, uma banda feita de um monte de gente, Win Butler, a mulher Regine Chassagne, o irmão dele, mais o irmão de não sei quem, mais o rapaz do acordeão e tudo, tantos instrumentos, é muito recompensador gostar de uma banda que tem um xilofone e deixo de ser uma mulher sozinha com a cozinha arrumada e passo a ser parte de uma família que tem parentes no Canadá. Agora, desde há um mês que partilho andar com uma família extensa, com filhos, cão, tudo, marido e mulher e todos, eles no terceiro frente, eu no terceiro direito, todos a jantar à mesma hora, com as cozinhas lado a lado, com o som das crianças, dos tachos, dos pratos, copos e eu só com aquele plim do microondas. Todas as noites o mesmo ritual, os tachos, os pratos, os copos, os risos, a conversa, as migalhas e no final o aspirador. Acho que fazem tudo para me mostrar que são tantos. Por isso, para esta noite preparei a resposta e vou dar-lhes com o fogo de arcada no electrodoméstico. Preparei o Funeral, faixa 1- e se a chuva (não a neve) enterrar o meu bairro? Esta noite mostro-lhes que eu e os meus primos de Montreal também somos uma família.